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Do jaleco à dark web: o tráfico de informações médicas no Brasil

Os hospitais e clínicas brasileiras estão cada vez mais digitalizados, mas essa evolução trouxe riscos críticos: vazamentos de dados de pacientes, muitas vezes explorados não apenas por criminosos comuns, mas também por atores com interesses corporativos. Esse é o que podemos chamar de “crime do jaleco” — quando instituições de saúde ou seguradoras  acessam informações sensíveis de forma indevida para tomar decisões comerciais ou estratégicas.

Denis-Furtado-Edit
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Em setembro de 2024, um trader da dark web publicou uma réplica completa do Datasus, o banco de dados nacional de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). O arquivo continha 177,9 milhões de registros, incluindo CPFs, nomes dos pais, endereços, números de identidade, cartões do SUS e contatos telefônicos, de acordo com o Data Breach. 

Esse incidente não foi isolado. Em agosto de 2025, a empresa Maida.health sofreu um ataque de ransomware que resultou no roubo de mais de 2 terabytes de dados, incluindo registros médicos detalhados de membros da Polícia Militar do Brasil e suas famílias, segundo o site CyberNews.
 
Esses dados sensíveis foram posteriormente oferecidos para venda em fóruns da dark web. O impacto desses vazamentos vai muito além da privacidade: decisões médicas podem ser comprometidas, pois informações sensíveis podem ser usadas para priorizar ou preterir pacientes com base em interesses comerciais e não clínicos. Além disso, a confiança dos pacientes nas instituições de saúde é abalada, afetando toda a cadeia de saúde.

Estes incidentes também aumentam a exposição a crimes cibernéticos e fraudes. Informações médicas podem ser vendidas ou manipuladas, colocando em risco tanto pacientes quanto instituições. Em 2024, o setor de saúde foi o mais afetado por vazamentos de dados, representando quase 23% dos incidentes registrados, de acordo com dados da Kroll.

A grande recomendação é manter atenção aos fundamentos da segurança: políticas claras, treinamento das equipes e monitoramento constante. Sem isso, recursos mais robustos, caros e complexos perdem efeito. Não há criptografia ou autenticação multifatorial que resista a uma senha escrita num post-it colado no monitor.

Da mesma forma, tomar a frente para dar transparência e publicidade ao incidente é invariavelmente a melhor atitude, simplesmente por manter o controle sobre a comunicação.

Proteger os dados de um hospital é cuidar das pessoas. Não se trata apenas de manter informações seguras, mas de preservar a confiança dos pacientes e o bom funcionamento de toda a rede de saúde. Para isso, hospitais, profissionais e órgãos reguladores precisam agir de forma preventiva, adotando práticas que reduzam riscos e assegurem que cada informação médica seja também “cuidada” com sigilo e responsabilidade.
 

*Denis Furtado é engenheiro de sistemas e diretor da Smart Solutions, distribuidora brasileira de solução antifraude e de cibersegurança. Mais informações em:

https://smart.etc.br/